Adoro comer comidas de São João, canjica, curau de milho verde, paçoca, pé-de-moleque, doce de batata-roxa e o que mais aparecer. Quase todos os doces são de milho, facilmente explicável por ser a época da safrinha.

No Brasil de antigamente, acostumado a fazer oferendas a seus santos, a estação do frio em junho tem muitos bons motivos para festejos. O mês começa com uma homenagem especial a Santo Antônio, que tem um delicioso bolo de amendoim. Mas não é o seu lado casamenteiro que deve ser homenageado. Ele cura a fome, e é por isso que existe o famoso Pão de Santo Antônio, na verdade o que existe é uma receita de uma massa de pão da qual se guarda uma parte para usar como fermento na próxima fornada.

O mês continua com a festa de São João, 23 e 24 de junho, a data coincide no Hemisfério Norte com o período do solstício de verão. Os dias mais longos do ano eram festejados com um festival de jogos e atividades em homenagem ao santo e meio que disfarçadamente à mãe natureza. No dia 29, encerrando os festejos é dia de São Pedro, o porteiro do Céu na sua versão popular e, na verdade o grande organizador do cristianismo, o primeiro Papa.

Mas quem utiliza a Rodovia dos Tamoios que liga o planalto ao litoral norte do estado de São Paulo, pode fazer a sua festa de São João o ano inteiro. Todas essas delícias estão disponíveis nos restaurantes ao longo da estrada. Mas um deles, o Fazendão, mantém uma enorme panela de canjica sobre um fogareiro o ano inteiro. O fogareiro é um item importante da receita, ele garante que a canjica continue a cozinhar no fogo muito suave até ficar com um sabor caramelado (o que um pouco me deixa na dúvida se o segredo da receita não está em uma lata de leite condensado). E por cima podemos jogar uma camada generosa de canela. A canela de cor meio avermelhada, bem caipirona que de tão vermelha parece ter um pouco de colorau misturada, chega fazer um desenho na superfície da tigela. Mas depois de subir a Serra do Mar, é dessa canjica mesmo que a nossa alma precisa.