A todos os turistas que aparecem por aqui contamos que o prato nacional é o arroz com feijão, e para a comilança nacional ficar com ares ainda mais exóticos dizemos que o comemos com frequência com farinha de mandioca, herança dos índios.

Explicamos com muito jeito que a feijoada teve a sua origem nas fazendas ainda no período colonial quando os senhores da terra comiam a parte boa do porco e deixavam as sobras para os empregados e escravos que o preparavam cozidos com feijão. É claro que os patrões ricos ficavam com as carnes melhores. No entanto, como em todo país jovem e sem suas fronteiras demarcadas, a maior parte da população era composta de fazendeiros pobres, aventureiros, vaqueiros, padres e escravos africanos e crioulos. Sem mencionar os índios obrigados a se deslocar cada vez mais para o interior.

Por isso essa nossa explicação, não é a melhor delas. Como se dizia antigamente do porco só não se aproveita o berro, e não vejo porque a maior parte dos fazendeiros abriria mão de algumas partes do porco para seus escravos. Comecei a ficar com isso na cabeça em busca de uma explicação mais esclarecedora. Se fosse rico poderia sim ficar com uma parte do produto de sua criação, mas a maior parte não era rica, e, portanto iria vender as partes nobres e as menos nobres de qualquer animal. O rabo, a orelha, os embutidos preparados com as sobrinhas de carne e a gordura, o pé do porco eram quando consumidos, escravos e patrões ganhavam um feijão melhorado. Tanta caça no mato por que comer justamente o bicho que pode ser vendido a bom preço?

Comecei a listar outros feijões e lembrei-me da feijoada portuguesa, igualzinha, ou quase, só que com feijão branco. Lembrei do cassoulet francês, preparado com algumas carnes salgadas, embutidos e as pernas do ganso. Quer sobra maior? O peito e o fígado devidamente embalados eram e ainda são vendidos no mercado; e com as coxas e asas mais um feijãozinho, uma cebola, uma folha de louro e tem-se um prato quase tão bom quanto a nossa feijoada.

A nossa mais ou menos, não é mesmo? A minha é a do Rio de Janeiro com feijão preto. No Recife comi uma deliciosa com quiabos e coentro e a vovó Mimi, mãe de uma amiga minha prepara a melhor delas ? à moda de Santa Catarina, levíssima, do meio para o fim são colocadas laranjas para cozinhar no feijão e elas desaparecem com todo o gordurame das carnes. A feijoada é brasileira, mas cheia dos sotaques, ainda bem…