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Faz muitos anos que não vou ao Museu do Louvre ver a área de antiguidades gregas. Quem acompanha @CozinhaDaMarcia sabe que moro uma parte do ano na França e que aproveito o período para olhar algumas obras em museus que me expliquem situações ligadas ao modo como nós, cidadãos do mundo ocidental, comemos. Estou pesquisando sobre aves e pensei se encontraria alguma escultura ou baixo-relevo com uma briga de galos. Não encontrei, mas também não fiquei o tempo necessário no assunto. Me distrai. Notei a minha volta milhares de pessoas de todas as nacionalidades olhando esculturas de gente pelada de tamanhos diferentes. Eram esculturas, mas muitos vasos, potes e até puxadores de gavetas e portas com o formato de corpos torcidos como bailarinos.

Não vi ninguém gritando que aquilo era uma pouca vergonha como aconteceu no Brasil. As esculturas mostravam lutadores, pais e filhos, mães e filhos, amantes, amigos, amigas, todos nus. E ali estava nossa herança. O corpo como ele é. Sem questionamentos do gênero, do relacionamento, apenas a reprodução de um determinado momento. A Grécia e em seguida a Antiguidade Romana, o meu passeio foi por essas duas áreas do museu, mostrou como eram sofisticados os nossos antepassados e como diferente dos dias de hoje, estavam de bem com seus corpos e aparentemente com a sua sexualidade, não precisavam gritar para fechar uma exposição como a patrocinada pelo Banco Santander sobre o questionamento das sexualidades que, de tão perseguidas nos últimos dois mil anos, acabaram por precisar ser redefinidas como espaço de liberdade.

Essas estátuas também nos falam dos direitos das pessoas de olharem o que quiserem afinal a mesma sociedade que criou essas esculturas criou o Direito Romano, o conjunto de leis que deu origem à legislação que regulamenta a vida das pessoas em países latinos até hoje. Então, o corpo nu sem ser molestado e questionado, apenas admirado, está de alguma maneira ligada a não sair por aí matando pessoas e a defesa de crimes indefensáveis em uma escala maior.

Em uma escala mais íntima, o corpo nu representado por gregos e romanos também defende a ideia de seres humanos livres para entenderem a sua própria beleza e a do seu próprio corpo. O modelo do outro, para quem como eu trabalha com ingredientes e comida, sempre aponta para o nada, a comida é ruim, eu sou feia e mereço não comer e até morrer de anorexia.

Eu fui procurar imagens de uma briga de galo no Museu do Louvre e sai feliz por poder convidar a todos para tirarem suas roupas na frente do espelho e perceberem como somos bem feitos!

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