Eu gosto de misturar alta gastronomia com comida industrial. Tenho certeza que um pouco de cada faz a vida melhor, desde que valham as calorias como dizia uma colega de trabalho na revista Claudia. Guardei a sua observação para sempre. Vale a pena comer? Em caso afirmativo não me preocupo muito com a procedência, pode ser um queijo preparado com leite cru colhido de madrugada no interior da França; pode ser uma bolacha com recheio de chocolate comprada no supermercado. O meu problema é que cada vez menos o que vem da prateleira dos mercados vale as calorias. Em alguns casos, causam enorme decepção pelo que já foram.

Faz algumas semanas saiu a notícia que a Nestlé está se retirando do mercado norte-americano de chocolates e confeitos populares – vendidos nas prateleiras de supermercados, drogarias, bancas de jornais são de um modo geral bem parecidos com os que temos por aqui no Brasil. Baixa qualidade, preço médio para os seus ingredientes e embalagens coloridas com palavras chaves do marketing de varejo alimentar – ‘promoção’, ‘amigo’, ‘todo seu’, ‘colecione’, e por aí vai.

Se a metodologia aplicada aos seus produtos lá for a mesma aplicada por aqui, não é difícil entender os motivos para a queda de consumo. Excesso de açúcar, falta de interesse em manter a identidade do produto que em bolachas industrializadas é a capacidade do fabricante manter a qualidade daquilo que o consumidor morde e engole, muitas vezes confundidas com as cores embalagem.

Existe ainda uma outra questão delicada, e um pouco contraditória para uma empresa cujo nome é sinônimo de chocolate, escreveram “sabor chocolate” na embalagem das bolachas Passatempo, e na lista de ingredientes não consta chocolate ou cacao. Pode ser que esteja relacionado a um problema comum a todos os fabricantes de chocolate. Apesar de prestarem muita atenção na origem dos grãos de cacao com que preparam os seus chocolates: o uso de mão de obra em condições semelhantes à escravidão nas fazendas de seus fornecedores de cacao. Mesmo com todos os cuidados quase todos os grandes fabricantes, acabam envolvidos em questões jurídicas e, aparentemente, o ‘sabor chocolate’ resolveria esse problema.

Não é um problema recente, as primeiras denúncias oficiais sobre trabalho em condições semelhantes à escravidão ocorreram em 1909 contra os portugueses em suas plantações de cacao na Ilha de São Tomé. Sequestravam trabalhadores em Angola e os levavam à força para trabalhar nas fazendas de cacao de São Tomé. Mas tinha e tem em toda parte. Hoje, principalmente nos países da Africa Ocidental, Gana e Costa do Marfim, esse o maior produtor de cacao do mundo.

Leia aqui mais detalhes sobre como a Nestlé vai sair do mercado americano.

Eu já comi muito biscoito Passatempo da Nestlé abraçadinha com o meu pacote, já assisti muita televisão em uma casa que tive em Ubatuba, e tenho uma memória muito boa para tudo que coloco que boca. O Passatempo que eu comia era uma bolacha de tamanho maior, com menos sal, com mais recheio, com mais baunilha e mais sabor de avelã e chocolate (nem me importa se era artificial). A massa da bolacha era mais compacta e menos esfacelada. Talvez o celofane da embalagem fosse um pouco mais espesso e deixasse as bolachas mais protegidas. Enfim, a noite de ontem foi uma decepção. Nada de comida para alma ou hora da saudade, aconteceu mesmo uma despedida das bolachas de supermercado.