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Quando se trata de falar do nosso cafezinho, logo aceitamos uma história romântica no lugar de parar e pensar sobre a dura vida de uma colônia tropical

Estou lendo um livro sobre a história do café, Uncommon grounds, the history of coffe and it transformed our world, esse é um assunto que fez e ainda faz bastante sucesso e me interessa bastante, principalmente por que a nossa história econômica está fortemente vinculada ao seu cultivo. No passado as plantações em larga escala serviam de estímulo à escravidão, e ainda, nos tempos atuais, apesar de muitas melhoras, ainda estimula condições de trabalho pouco modernas na maior parte das regiões do mundo onde é plantado. Tudo ia bem com a minha leitura e acreditava em todas as explicações até ler a velha história sobre a introdução da planta no Brasil.

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É sempre mais confortável aceitarmos um interesse amoroso do que comercial. E, com a história do café não é muito diferente. Nas escolas e infelizmente também nesse livro, ensina-se, em detrimento de fatos, uma bobagem infinita, que nos faz parecer toscos e o Império Português tonto frente às demais potências – no lugar de uma força econômica decadente mas ainda razoável, o que foi durante o século XVIII e XIX. E, em nome do espírito romântico abraçamos qualquer falsa verdade.

 O livro descreve muito bem e de um modo genérico, de onde veio a planta – da Etiópia – como se espalhou pelo mundo, como o consumo aumentou; porém, na hora de falar do começo da produção brasileira repete uma historieta que mais parece uma aventura de capa e espada do que um fato possível.

 Reza a lenda que o café entrou aqui pela região onde hoje está o Estado do Pará e que poucas, muito poucas, sementes foram contrabandeadas da Guiana Francesa por um senhor Palheta. Ele teria conseguido as sementes das mãos da mulher do Governador da Guiana Francesa, após um caso amoroso.

 A história é uma bobagem completa, em primeiro lugar por existir documentação comprovando outra versão dessa expedição. Mas, ainda hoje não deixo de ficar fascinada como ela é contada em escolas e ainda mais por que todos a aceitam como verdadeira.  Se pararmos para pensar qual seria o interesse de uma senhora da aristocracia francesa, chamava-se Madame D’Orvilliers, cujo marido era o representante do Rei da França, em se meter com um inimigo? Palheta era um militar português.

 O norte do Brasil, o então Vice-reinado do Grão Pará, era formado pelos estados do Maranhão, do Pará e parte da Amazônia. Essa região, junto com as colônias chamadas de Guiana Francesa, Inglesa e Holandesa, teve um papel muito importante a partir do século XVII na aclimatação de plantas para a sua produção em larga escala. Eram os embriões de empresas como a Embrapa, especializadas em selecionar sementes com alta rentabilidade e resistentes à pragas.

Palheta, de fato, esteve na Guiana no século XVIII,em 1727, e também trouxe o café como ordenado pelo rei de Portugal, sua visita foi uma missão oficial. Era comum a troca de conhecimentos entre os cientistas, bem como compra de mudas. Palheta não retornou exatamente em segredo fugido como um amante enlouquecido. Ele voltou com um carregamento enorme distribuído entre a sua fazenda e outras da região, no atual Maranhão, em torno da cidade de São Luís. E, como ele mesmo descreve a sua empreitada em uma carta ao rei de Portugal, trouxe mil mudas já pegas com muito esforço, ainda lembra que os franceses não gostavam dos portugueses e que queria ser mais bem recompensado por ter cumprido as ordens reais com sucesso. Pedia permissão, nessa carta, para caçar e escravizar duzentos pares de índios.

Diante de tamanha violência, em alguns dias prefiro achar que foi amante de Madame D’, mas o que de fato ocorreu foi uma expedição militar. As duas figuras acabaram associadas para sempre e viraram inclusive marcas de café deliciosamente concorrentes no século XX o café Palheta e o café D’Orvilliers. No mesmo período, um slogan velhinho dizia Palheta, eta cafezinho bom!

 A seguir tem uma receita de sorvete de café muito especial e principalmente divertida de fazer.

Sorvete de café