Um dos maiores sonhos de quem cozinha para muitas pessoas é não ter louça para lavar nem panela para arear, como se dizia antigamente. Arear era esfregar com areia as panelas engorduradas. O atrito retirava os alimentos que estivessem grudados nas paredes das panelas e vasilhas e ainda absorvia os restos de gordura. O antepassado do bombril necessitava de um rio no fundo da casa, fora isso funcionava muito bem.

Na minha infância em Teresópolis fiz isso algumas vezes, também esfreguei limão em panela de cobre, ou pelo menos fiz parte da turma que limpava a louça nas águas do rio. Eu gostava mesmo era de pegar girino com um vidro velho de geléia. Em certa ocasião mantive alguns no aquário do colégio até criarem as patas dianteiras. Depois não lembro o que aconteceu com eles. Devem ter sido dispensados do serviço de cobaias de crianças.

Mas, voltando ao prato único. Hoje em dia um dos grandes atributos de muitos pratos é ficar rapidamente pronto, afinal no mundo contemporâneo não se deve perder tempo. A pergunta que fica é porque nossos antepassados teriam tempo a perder? Porque cozinhar e lavar louça se posso conversar, caminhar ou bordar? Ilusório, ou melhor ingênuo achar ricos, pobres e remediados tinham funcionários ou duendes que faziam os serviços domésticos por eles. A consequência dessa falsa pressa é deixar de lado o motivo pelo qual comemos: para ficar vivos. O valor nutricional do que se come em geral só é considerado na hora de se alimentar as crianças.

E na contramão, tem uma receita que aparece oficialmente no século XVIII para combater a fome e a subnutrição: o escondidinho. Essa receita ficou famosa na França em1781, quando o país passava por uma enorme onda de fome. Na ocasião Antoine Parmentier, médico militar, explicou ao rei Luís XVI o valor nutricional da batata, até então utilizada como comida de gado. Aproveitou para sugerir que fosse preparada com carne picadinha para torna-la mais palatável e assim aumentar a sua popularidade. Deu certo. O nome do prato Hachis Parmentier – picadinho Parmentier, é em sua homenagem. Logo, se internacionalizou. Na Inglaterra o picadinho até hoje é preparado com carne de carneiro e portanto chama-se Sheperd’s Pie, torta do pastor.

Veja receitas de escondidinho de camarão e de carne seca

No Brasil, chegou glorioso e muito bem naturalizado: carne seca bem refogada coberta com pure de mandioca — o aipim. Mas também pode ter frutos do mar, carne de alcatra picadinha, patinho moído ou meio a meio: metade carne de porco e metade de carne de boi moídas juntas e muito bem temperadas, tudo por por baixo de uma cobertura grossa de pure de batata, cará, inhame, mandioquinha ou batata-baroa. E além de muito nutritivo, o escondidinho só precisa de uma tijela.